ás vezes, a vida surpreende-nos.
Da pior maneira, os problemas massacram, remoem e magoam, criam lesões incuráveis, feridas abertas permanentemente... secalhar não deverão ser chamados de problemas, mas sim, circunstâncias da vida.
Não posso definir o que me passou pela cabeça naquele momento, como também não sei onde fui buscar tanta coragem para o fazer, a verdade é que o fiz com um único objectivo: morrer. deixar de ouvir, adormecer permanentemente. deixar de ver, de sentir... deixar de ser.
era a perfeita fuga para a facilidade, e, pensava eu, para a felicidade. é difícil não me auto-julgar depois do que fiz, é difícil acreditar que, pela primeira vez na minha vida, tive vontade de fugir asério, de me apagar. isso não aconteceu. não resultou e nem um sintoma tive. sorte? não sei. foi a vida a contrariar-me, mais uma vez... como sempre faz.
Foi preciso cair, cair asério... para me levantar, para me redefinir, para estabelecer prioridades, para organizar, de novo, as minhas prateleiras.
costumam dizer que a vida não espera por nós, nem dá segundas oportunidades. não é verdade, eu tive uma nova oportunidade para fazer uma coisa que há muito não sei o que é: viver. viver por mim, pra mim.
sentada naquela cadeira de hospital, tive pequenas visões, desde miúda até hoje. ao ver pessoas a lutar pela vida, senti-me totalmente reduzida, não por ter sido fraca ao ponto de não querer viver mas sim por não exigir mais de mim e da minha vida. aprendi que a vida é um bem que nem toda a gente tem quando quer.
aprendi que não há razão que justifique o meu silêncio absoluto.
mas ainda há restos de mágoas e de lesões, porque essas sim, ficarão para sempre. ainda não voltou o meu sorriso que se perdeu no ultimo abraço que dei. ainda há força que falta, oxigénio que não passa. sinto-me de novo uma criança a redescobrir um mundo que já conheço. ainda me custa a acreditar que ainda vejo, oiço, sinto, quero, cheiro, toco... coisas que nem sequer eu reparava que conseguia de tão automatizadas que estavam. passei a reparar em pormenores, a analisar tudo ao mais ínfimo pormenor.
libertei-me, finalmente.
p.s. e a todos os que lá estiveram, obrigada.