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história de tinta. história de nós.

No início, pensei que fosse só medo: medo de voltar a ser magoado, traído, posto de parte... Depois os meses foram passando. Dizias precisar de mim, contavas as inseguranças, as vitórias e tudo o resto que achavas não te colocar em causa, mas não me ouvias. Eras frio. Era isso que mais me assustava em ti, e então percebi que esta gélida temperatura me aquecia o coração e que precisava cuidar de ti, porque estaria a cuidar de uma parte de mim.
Como uma criança a aprender a andar, ias-te aproximando. Confiavas 20 e eu demonstrava que deverias confiar 40. Tal como eu, aprendeste a ter-me na tua vida. A não prescindir do meu mimo, da minha atenção, da segurança que sempre te dei. Passei a descobrir-te, a decifrar-te nos silêncios, a conhecer-te nos olhares longínquos. E ia passando o dedo bem de leve na tua mão pousada na minha coxa e tu, do teu jeito desajeitado, lá ias pedindo que ficasse, que te ouvisse, que te cuidasse.
O relógio continuava a contar e eu continuei a ficar... Até que já não precisavas de falar, para perceber o que se passava contigo, o que sentias ou o que querias. Estive lá contigo doente, dei-te mimo quando o mundo te batia, levantava-te quando caias, não te deixei desistir de nada, por muito que fosse difícil. Ensinei-te que desistir é para os fracos, e que quando queremos tudo, a vida sempre nos dá só uma parte: uma parte escolhida por ela. Tornei-me no teu porto seguro e encontrei o meu no teu sorriso. Davas-me paz: era tudo o que precisava. Estar dentro de um abraço teu era melhor do que qualquer outra coisa muito boa que possas imaginar.
Notava-te mais crescido, mais mimado, mais feliz... mais comigo. Começaste a esforçar-te por mim, a tomar decisões, a mimar-me, a querer-me ainda mais... pensava eu.
Pensei que se fizesse tudo certo te faria feliz. Pensei que se fosse a super mulher seria suficiente para que um dia tivesses a confiança de me chamar de tua. Pensei que amar-te desta minha forma te daria essa confiança. Também fui a chata, a ciumenta, a mau feitio que te tirava do sério... o amor que nunca havias tido, que trocaste por mais um pedaço de carne, como mais uma dessas que passa pela tua cama todas as semanas e depois, quando precisas, te dizem Txau!
A verdade é que quando pegámos numa caneta para escrever, quer façamos muita força ou não a segurá-la, a tinta passa para o papel... a diferença é a marca que fica quando a tinta, com o tempo, desaparece.
"Foram os teus abraços, o sorriso maroto, o teu corpo desenhado... e eu desajeitado e tu sem me dar troco, fica mais um bocado... e ela diz que não dá!"

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