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Carta a ti, Silêncio.

Olá, Silêncio. Tu, que tanto me incomodas, mágoas e massacras. Existes porquê? Achas que a tua presença faz com que saia da cabeça, quem não sai do coração? Achaste assim tão poderoso para apagar tudo o que foi vivido?! Pois lamento! Lamento desapontar-te. Lamento dizer-te que não fazes mais do que me gastar a paciência. Lamento que não me consigas atingir onde queres. Há coisas que protejo com a minha vida, sabes? Esta é uma delas. Este amor. Ele é o que ele me faz ser e me torna capaz. Tu não sabes mas, apesar da tua insistente presença, ele continua a dar-me força. Continua a fazer-me acreditar, e, acima de tudo, nunca desistir. Faz-me recordar, todos os dias, o amor que um dia foi recíproco. Faz-me recordar os "fica mais um bocadinho", os "não te quero perder", aquele toque com a pontinha dos dedos que faz arrepiar. Os sussurros e as mordidas na orelha. Os "quero-te comigo". As certezas que ele tanto tinha. A ideia de acordar ao lado dele, todos os dias, continua a ser uma das que mais faz sentido. Bem como estar lá... Quando a lágrima quisesse roubar um bocado do brilho do sorriso dele. O estar lá na saúde, na energia, na vitalidade... Bem como, também, na doença, na dor, na adversidade... quando as forças lhe faltem e fique completamente desorientado, quero que seja no meu abraço que encontra um ponto de paz. Tu não sabes, Silêncio, nem lhe permites saber que tudo o que quero é ter uma vida com ele. Sem tretas, sem meios termos, sem perder tempo com mútuas provocações. O que quero é chegar lá e fazer. Assim. Simples. E pró que quero, não preciso que o tempo me traga certezas porque essas são as únicas que nunca foram embora. Sabes, Silêncio, qual foi o nosso erro?! Focarmo-nos demais, nos outros. No que diziam, faziam ou pensavam. Deixamos de nos viver, de nos sentir, de nos ter... para que outros vissem que nós tínhamos e vivíamos. Sabes, agora, tarde ou não, sei que esse foi o nosso maior erro. Tudo o resto foram desculpas. Desculpas que esperávamos que nos fizessem conseguir viver um sem o outro. Silêncio, tu podes não saber, mas o que sentimos... resiste ao tempo. E às pessoas. O nosso mal é sermos orgulhosos demais e termos um medo danado de o outro não nos dar tanta importância quanto ele tem pra mim, exatamente na mesma intensidade. O nosso mal é achar que o passado tem de ser um exemplo e não uma lição. O nosso medo é perdermo-nos um ao outro, quando nos devíamos perder um no outro. Mas, mesmo assim, amo-o. Mesmo no meio do orgulho besta, da mágoa... Procuramos em todas as pessoas traços um do outro... e, sabes, é aí que mais dói. Quando percebes que não há outro toque como aquele, que não há outro colo como aquele, outros lábios que te beijam como aqueles. Não há outra voz, outro olhar, outro sorriso. Porque não foi só na pele, só no corpo que ele me tocava. Simplesmente, encaixamos. Com mais ou menos jeito, com mais ou menos velocidade, hoje e aqui ou amanhã é acolá. Encaixamos e, por momentos, aquele é o mundo em que mais gostávamos de estar, um no outro. Onde tocamos nas feridas de cada um. Onde descobrimos cada pormenor, cada sinal, cada pormenor, cada fragilidade. Na vida, só sentes isto uma vez e só tens um e um só amor. O meu, é ele. É com ele que sinto que tenho vida noutro corpo. Ele é o único que quero cuidar, ter e ser. Novo ou velhinho. Com limitações ou não. Bem disposto ou mau feitio. Porque amar, só amas uma vez. Assim.

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