Avançar para o conteúdo principal

a falta que me fazes

Já sinto tanto a tua falta, meu Deus. Estava tão habituada a ter-te ali, em frente à televisão, no meio das ferramentas que já nem dava por ti, nem pela importância que tinhas na minha vida. Hoje, entro em tua casa, e não me parece a tua casa. Está vazia. Está escura. Está sombria.
Não tem o brilho do teu sorriso ou a imponência da tua voz. Não tem a tua alegria ou o teu sarcasmo que tantas vezes me fizeram o dia. Não te tem a ti, e está vazia por isso.
Sabes, vô, gostava que ainda cá estivesses e que me desses o prazer de entrar de braço dado, comigo, na igreja. Gostava que cá estivesses para veres o que ainda irei construir. Gostava que conhecesses os teus bisnetos e, também a eles, os brindasses com as tuas viagens no kit.
Gostava mesmo que estivesses aqui. Que me ouvisses e ajudasses a tomar decisões, mas mais que isso, que me fizesses sentir importante. Fizeste-me sentir muito importante, nos últimos meses, quando procuravas a minha mão para adormecer no hospital, quando acordavas a chamar por mim, quando, mesmo em coma, tinhas reação há minha presença. Ainda bem que seguiste o meu conselho, e, por uma vez na vida, pensaste em ti. Não sofreste mais. Fiz o que pude. Passei tardes a estudar o teu caso clínico, passei dias contigo no hospital, dei sangue quando precisaste de transfusões, reuni com médicos, enfermeiros. Cuidei de ti. Ouvi-te. Estive lá. Fiz-te sentir seguro. Retribuí um bocadinho daquilo que toda a vida fizeste por mim... Devo-te a vida. O facto de estar viva devo-to a ti. Caso contrário, era mais um feto abortado por uma mãe inconsciente. Tornei-me uma mulher forte, com objetivos, sem medo do trabalho... bem, na verdade, sem medo de nada... e isso era a minha única característica que te dava medo a ti. No resto, tinhas confiança, mesmo que nem sempre demonstrasses. "Olha que eu ainda não morri". Eu também não, avô, e olha, prometo ser boa menina. Ser a Tua boa menina.
imensas são as saudades que já tenho tuas e tão pouco tempo ainda se passou da tua, agora eterna, vida. que estejas em paz, meu amor.

Mensagens populares deste blogue

SER(mos) AMOR

O que fazemos ao amor quando não lhe podemos tocar?  Quando não temos forma de materializar tudo aquilo que nos invade a alma? Quando não temos o beijo, o abraço, aquele toque tão característico? Aquele que é, sem dúvida, o veículo que nos ajuda a fazer os outros perceberem que gostamos deles, que nos são queridos e que os queremos ali, bem perto de nós. Queremos tocar, porque sentimos, porque o SENTIR e o SER são o combustível da alma.  E é, precisamente aí, que gosto de tocar em cada um,  em cada pedacinho de ser que amo.  Sentir o amor em nós é um ato de muita responsabilidade. É muito especial quando amamos alguém... Quando alguém nos dá a capacidade para voar (mesmo sem asas), para ser (mesmo sem ter), para sonhar, para ter e conquistar. Não gosto de pensar no amor como uma luta, mas como uma construção diária. Todos os dias temos as coisas boas, os sorrisos, as brincadeiras.... mas também temos os dias maus, o mau humor, a palavra mal dita, o...

Sentir (te) Mãe

Aprendi quando ela ainda estava na barriga. ELA. O meu novo mundo de descobertas. Cada movimento, cada pontapé, cada soluço fazia-me, cada vez mais, ter a certeza que ela já era demasiado minha, tão minha quanto Eu dela. Conhecê-la, poder tocar-lhe e sentir o seu cheiro era um acontecimento cada vez mais próximo de acontecer, e a ansiedade era cada vez maior.  Na verdade, acho que tinha medo de tudo, até do próprio medo. Já fazia planos de como seria o parto, antevia cenários (uns bons, outros não tão bons assim). Eu estava à espera dela. Nesse dia, acordei estranha. Sentia-me sonolenta, cansada, com dores de costas, mimalha... Ela estava calma. Não sabia nada além do que lia nos livros, nos artigos, do que aprendi na faculdade e do que fui perguntando. Estava sozinha em casa e, do nada, senti uma dor forte no fundo das costas. Senti-me molhada e, quando olhei para o chão, tive a certeza que chegara a hora. Avisei o papá dela e chamei o meu papá (inevitável...). Fui para a m...

avô.

Avô. Tu, foste tu que nos ensinaste a ser assim. Foste tu que, de uma forma ou outra estiveste sempre lá. Do teu jeito, resmungão.  Avô, queria poder dizer-te Obrigada .  Pela fantástico legado que me deixaste. Por nunca me teres deixado sozinha. Por estares lá, incondicionalmente. Por seres Pai, Avô e Amigo. Por nos brindares com as fantásticas viagens no kit, as tuas discussões do "eu tenho razão", a tua forma de remodelar coisas estragadas. Ensinaste-me que nada é lixo. Tudo, de alguma forma, pode ser concertado. Não só as coisas, como os sentimentos. Para tudo, há uma solução, embora muitas vezes não seja aquela mais fácil de ver ou a que estamos mais habituados a usar. A tua persistência em ser exactamente desse jeito deu-me a capacidade para ver mais além. Transmitiste-me que o essencial é ser humilde ...  Não importa o que somos, o que temos, quem somos ou o que aspiramos na vida, temos que ser humildes. Porque é a humildade que nos lev...